terça-feira, junho 17, 2008

Momento de leitura ... ao som de ...

"(...) uma vez mais voltei a definir a falsa ordem do caos, a fingir que me entregava a uma vida profunda na qual não tocava a terrível água senão com a ponta do pé. Sim, existem rios, e ela nada neles como essa andorinha está a nadar no ar, girando em torno do campanário , deixando-se cair para chegar mais alto com o impulso. Eu descrevo, defino e desejo esses rios, ela nada neles. eu procuro-os, encontro-os, olho-os a partir da ponte, ela nada neles, e tal como a andorinha, não sabe disso. Ela não precisa de saber como eu, pode viver na desordem sem que nenhuma consciência de ordem a retenha. Essa desordem que é a sua ordem misteriosa, essa boémia do corpo e da alma que lhe abre as verdadeiras portas de par em par. A sua vida não é uma desordem senão para mim, enterrado em preconceitos que desprezo e respeito ao mesmo tempo. Eu, condenado a ser irremediavelmente absolvido (...). Ah, deixa-me entrar, deixa-me ver um dia como os teus olhos vêem ... (...)"

in O jogo do Mundo (Rayuela) - Julio Cortázar pp117 cap. 21


Eu já sou ...

3 comentários:

Toinho Castro disse...

o belo jogo de cortazar... tantas vezes já passei por essas páginas. feliz de encontrá-lo aqui.

Ela permanece incógnita disse...

Que belo momento!
Estou a ver que estás mesmo a devorar esse livro...

eu já sou incógnita disse...

cada página é um deslumbramento ...!!!